Renata Valério de Mesquita. Revista Planeta nº 490, de agosto de 2013. Artigo "As pessoas seguem hashtags, não pessoas." - A tecnologia foi o maior facilitador das recentes manifestações sociais que tomaram as cidades brasileiras. Silvio Meira, o cientista-chefe do C.E.S.A.R. do Recife, conhece bem o poder das comunidades interligadas pela internet que estão mudando as regras do jogo político.
Silvio Meira, paraibano, 58 anos, é fundador e cientista-chefe do Centro de Estudos Avançados do Recife (C.E.S.A.R.), presidente do conselho administrativo do Porto Digital e professor de engenharia de software do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). [Crê que] a tecnologia digital permite ultrapassar a mediação dos partidos políticos, a caminho da democracia direta.
Pode-se criar um novo formato dedemocraciapor meio de tecnologias comoas redes sociais?
Você pode acabar com a política representativa. Tem quem diga que não podemos ter democracia sem partidos. Esse é o pessoal que não leu direito o livro do economista inglês John Stuart Mill sobre democracia representativa. Em momento nenhum ele diz que democracia representativa é a única forma de democracia que existe. Nem que ela é melhor que a direta.
Em 1860, a mediação era necessária pela única e simples razão de que era inviável pelo correio reunir todos os cidadãos para discutir organizadamente. O que estamos vendo agora é que podemos reunir todas as pessoas. Será – este é um grande “será” – que a gente pode exercer democracia direta? Dizem que não porque temos 75% de analfabetismo funcional, e a minoria de 25% vai dominar a outra parte. Se isso for mesmo verdade, já é melhor do que 0,0001% representando todo mundo, como é hoje.
Eu tenho certeza absoluta de que não vamos precisar de 518 deputados. A gente não vai precisar escutar o “nobre representante de Itaperoá”, vai poder escutar o povo de Itaperoá.
Se os partidos não atendem à demanda popular por representação, por que ter partidos? Vamos imaginar que a gente more numa cidade, onde todo mundo está na rede social, e quer reformar uma ponte. Podemos tomar uma decisão conjunta sobre isso. E não deixar um “cabra” mandar fazer outra ponte e aumentar meu imposto sem me perguntar – sendo que o mais importante não era a ponte, mas o contrato com a construtora. E lá vamos nós como cordeirinhos para o abatedouro.
Pergunta-se: será que os meios de comunicação disponíveis e o estágio de desenvolvimento tecnológico eram os reais e únicos impedimentos para o exercício da democracia direta? Deixe sua opinião nos comentários, por favor.